Estratégias e táticas em épocas de crise

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É comum se usar as palavras “estratégia” e “tática” de forma intercambiável, como se ambas descrevessem de forma geral uma espécie de processo de planejamento visando objetivos futuros. Se qualquer noção de distinção pouco importa em bate-papos informais e conversas entre amigos, um desmembramento mais claro e teoricamente robusto torna-se peça fundamental do arsenal conceitual de qualquer administrador.

Afinal de contas, o que separa a estratégia da tática e por que isso é relevante? Talvez fosse melhor inverter a pergunta, questionando o que separa a tática da estratégia, já que noções derivadas do dito processo de “planejamento estratégico” têm se disseminado cada vez mais pelo mundo empresarial. No entanto, sem tática não se explica estratégia, da mesma forma que sem noite não se explica o dia; a estratégia que tem batido à porta das empresas tem se mostrado muito mais cliché vago de mercado do que ferramenta útil para o desenvolvimento de negócios. Por isso, sejamos precisos em nossas definições. Olhando sob uma perspectiva temporal, a tática se interessa pelo curto prazo, sendo movida por ações e reações, enquanto a estratégia se interessa pelo horizonte, estabelecendo objetivos de longo prazo e postulando formas de alcançá-los.

Há de se contemplar que existe certa interdependência entre as lógicas descritas: a tática tende a ser função da estratégia, sendo guiada por esta (que frequentemente é decidida de antemão). Traçando um paralelo com uma partida de xadrez, a estratégia deve ser criada quando as peças estão em suas posições de origem e a situação se aproxima da neutralidade, como um plano-mestre escolhido em meio a milhões de possibilidades. A tática se desenrola somente depois, como forma de resposta às situações de jogo que forem surgindo, sempre buscando criar sinergia com as diretrizes delineadas pela estratégia inicial. Aproveitar um erro do adversário para alcançar posição de vantagem competitiva é uma tática interessante, mas pode não estar alinhada com a estratégia decidida de antemão. O que fazer, então, quando uma tática aparentemente eficaz não vai de encontro com o plano de jogo definido a priori?

Eis a razão pela qual essa discussão se faz valer. A crise econômica (deixemos as outras dinâmicas de lado) pela qual passamos tem o potencial de abalar qualquer planejamento e a situação inicial de neutralidade que pautou as escolhas estratégicas de empresas ao redor do Brasil mostra-se já inteiramente desfigurada. Em tempos imprevisíveis como este, a adaptabilidade muitas vezes tem de vir antes da teoria – táticas aparentemente desconexas das vertentes estratégicas já escolhidas podem significar a sobrevivência de inúmeros negócios. Em meio ao caos, se for vantajoso adentrar um novo mercado, adaptar seu modelo de negócio ou mudar sua rede de fornecedores, considere as táticas não como desvios e sim como oportunidades a serem aproveitadas.

As variáveis direcionadoras de sua estratégia podem ter mudado completamente, alterando também a realidade de sua empresa. A depender da instabilidade que aflige seu setor, rever o planejamento estratégico nesse momento pode ser impraticável. Se for esse o caso, dê nova vida às táticas em detrimento da estratégia. Por mais influentes que estratégias possam ser, não deixe que elas tomem as rédeas – não morra abraçado a uma estratégia obsoleta.  E se surgir alguma oportunidade no meio do caminho, agarre-a com unhas e dentes.

  • 25 de março de 2016
  • | Categorias: Gestão