Quais setores estão sendo beneficiados e quais são os que mais estão sofrendo com a crise?

GRÁFICO-DE-LUCROEm um contexto como o atual, onde o desemprego não para de crescer e, ao mesmo tempo, a inflação continua pressionada e atinge níveis historicamente elevados, a preocupação passa a fazer parte do dia a dia de todos aqueles que dependem de seu próprio trabalho para garantir o seu sustento.

Encerrado nos últimos dias, o trimestre móvel de abril mostrou que a taxa de desemprego voltou a subir, atingindo 11,2%. O resultado é 1,7% mais alto do que o do trimestre móvel encerrado em janeiro deste ano, que apresentava 9,5% de desemprego no país. Mesmo com alguns setores sendo extremamente prejudicados com as atuais conjunturas, existem também aqueles que estão conseguindo aproveitar esse momento de crise.

Segundo o professor de Finanças Roberto Savoia, da USP, nesses períodos conturbados as diferenças nas performances das empresas ocorrem devido ao comportamento adotado pelos próprios consumidores, que em épocas de crise acabam abrindo mão de compras e investimentos que os possam comprometer por um longo prazo.

Seguindo essa lógica, segue uma relação dos setores mais afetados pela crise e como a mesma os atingiu.

Beleza

O consumo de produtos e serviços do setor de beleza teve um crescimento considerável, mesmo frente à crise do país. Perante este cenário, especialistas afirmam que há uma substituição do consumo de roupas e sapatos por produtos de beleza, pelo fato do segundo grupo possuir uma média de preço inferior. Além disso, os consumidos precisam repor constantemente os seus produtos, por serem produtos menos duráveis, o que acaba movimentando o setor de forma contínua.

 

Alimentação

            Apesar do cenário econômico instável e da grande concorrência, o setor de alimentação fora do lar não parou de crescer. Pesquisas da Fiesp apresentam um crescimento de 35%, principalmente devido a abertura de novos empreendimentos gastronômicos. As empresas do setor possuem grandes metas, em especial aquelas localizadas nas cidades que receberão as Olimpíadas.

O crescimento do ramo alimentício acaba também por movimentar toda a indústria envolvida, como por exemplo os fabricantes de utensílios, máquinas, os produtores de insumos e também os centro de ensino. Espera-se que a alimentação fora de casa seja capaz de disponibilizar centenas de postos de trabalho, o que resultaria em um crescimento ainda maior para o setor.

 

Saúde e Seguros

O setor de saúde e seguros sofreram uma forte queda no terceiro trimestre de 2015, e em 2016 está sofrendo com o aumento da sinistralidade como reflexo da crise, impondo desafios do lado operacional. Embora o Brasil ainda tenha espaço para crescer em seguros, o mercado vem se estabilizando com empresas bem estruturadas.

A área cresceu 12,1% e 11,6% em 2014 e 2015, respectivamente, e projeta um crescimento de apenas 10,3% para este ano. O maior responsável pela queda do crescimento desse setor foi o ramo de saúde complementar, que havia uma projeção de avanço de 13,2% para este ano, mas que deve crescer apenas 11,4%.

 

Tecnologia

Vinda na contramão da recessão econômica, o cenário no qual se encontra a área de Tecnologia de Informação (TI) é positivo. O setor tem um crescimento estimado de 2,6% para o ano de 2016; mesmo com a atual situação do país, o mercado não para de crescer. Segundo Marcos André Silveira Kutova, diretor da PUC Minas Virtual, “todo o funcionamento das organizações é feito por meio de tecnologia, então os profissionais desse setor estão diante de um mercado sem limites. Eles podem trabalhar em absolutamente qualquer empresa.” Conforme dados da Associação para a Promoção da Excelência do Software Brasileiro (Softex), até o ano de 2020, o Brasil pode chegar a ter um déficit de 408 mil profissionais desta área.

 

Área Financeira

A área financeira é uma das grandes afetadas pela insegurança do mercado causado pela atual crise política. De acordo com o Banco Central, é prevista uma contração de 3,88% do PIB neste ano. Se a previsão da autoridade monetária se confirmar, esse será o maior “tombo” da economia brasileira nos últimos 26 anos. Apesar desse cenário, espera-se um aumento de 0,5% do PIB em 2017.

A previsão do IPCA para este ano é de 7%, bem acima da meta de 4,5% estipulada pelo governo no início do ano. Por outro lado, a tendência é que, até o fim do ano, abaixe a taxa de juros para 13% ao ano, atualmente ela está em 14,25% ao ano.

Já a previsão do câmbio para o fim de 2016 é de $3,70, e de $3,90 para o fim de 2017. Também, a balança comercial subiu de US$ 46,4 bilhões para US$ 48 bilhões de resultados positivos e a entrada de investimentos financeiros subiu de US$ 57,3 bilhões para US$ 58,5 bilhões.

 

Turismo

Em época de crise as pessoas tendem a cortar os gastos menos essenciais e, consequentemente, diminuem ou até mesmo cortam completamente suas viagens a turismo. Por isso, o setor foi um dos mais afetados pela instabilidade econômica no Brasil. Segundo uma pesquisa realizada pelo Ipeturis (Instituto de Pesquisas, Estudos e Capacitação em Turismo) para o Sindetur-SP (Sindicato das Empresas de Turismo no Estado de São Paulo), 82,1% das agências de turismo registraram queda nas vendas em 2015.

Porém, é interessante ressaltar que, apesar da alta do dólar, as passagens e hotéis ficaram mais baratos no primeiro semestre de 2015 em relação ao mesmo período do ano passado. Isso ocorreu porque as companhias aéreas preferiam fazer promoções relâmpago de última hora do que viajar com os aviões vazios. Além disso, o preço das hospedagens em hotéis no Brasil registrou queda de 4,07%.

 

Imobiliária

Com muitas pessoas precisando diminuir seus gastos, um dos setores que mais sofrem frente à crise econômica é o imobiliário. Uma parte muito pequena da população pode gastar na compra de imóveis, tampouco trocá-los. A fraca movimentação deste mercado nos últimos anos, causada pela imensa diminuição da procura de imóveis e pelas rescisões contratuais, tem se agravado progressivamente.

Segundo pesquisas, o número de tentativas para desfazer contratos de compra de imóvel em 2015 subiu 20% em relação a 2014. Este fato ocorre devido, além dos altos cortes de gastos que foram necessários para grande parte da população brasileira, pois uma grande parcela da população perdeu parte de sua renda, não podendo investir em um novo imóvel em um momento de tamanha instabilidade.

 

Indústria

A situação atual da indústria brasileira é comparável a situação vivida em dezembro de 2008, durante a crise mundial. A indústria recuou 2,5% em fevereiro, em comparação com o mês anterior, e já acumula queda de 11,8% nos dois primeiros meses do ano. Essa queda foi puxada principalmente pelo setor automotivo, que apresentou uma queda de 9,7% de janeiro para fevereiro, os setores de eletrônicos e de máquinas e equipamentos também foram mal nesse período, apresentando uma queda de 8,2% e 6,7%, respectivamente. As férias coletivas dos operários, vistas principalmente na área automotiva, é um reflexo dessa má fase da indústria brasileira, que prevê para o fim de 2016 uma retração de 4,5%.

Serviços

Assim como o turismo, o setor de serviços, que responde por 70% da economia brasileira, foi muito afetado pela crise vivida pelo país. Inflação, desemprego, juros altos, queda na renda são só alguns dos fatores que culminaram na redução de, 3,6% em 2015 em relação à 2014, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Com isso, o rendimento médio real do trabalhador também caiu. Em maio de 2015, era de R$ 2.117,10. Em abril era de R$ 2.158,74 e no mesmo período do ano anterior, de R$ 2.229,28. Além disso, os incentivos fiscais concedidos pelo governo a partir de 2009 para algumas áreas do setor como a de varejo foram retirados, agravando ainda mais a situação.

Ademais, é importante ressaltar que, se o setor vai mal, isso gera demissão, que acarreta em menos consumo e menos produção. Portanto, o setor de serviços tem um impacto gigantesco na economia do país; se ele vai mal, a economia tende a seguir o mesmo caminho. Porém, segundo o economista do banco Votorantim, Roberto Padovani, a economia está se ajustando a atual situação e a perspectiva para o futuro não é tão ruim quanto parece.

  • 2 de junho de 2016
  • | Categorias: Gestão