A liderança no tempo e o que ela precisa ser hoje

leadershipLiderança: conceito que tem perdurado no imaginário de dezenas de gerações, transcendendo em grande medida os avanços das ciências comportamentais de modo a permanecer no campo dos achismos e nas capas de livros de autoajuda. Apesar da longevidade, a projeção social do que é liderança não se manteve estática ao longo dos anos. Esta vem em constante evolução, moldando-se às novas realidades socioeconômicas de modo a driblar a obsolescência cultural e se manter como pauta relevante no Século XXI. Com isso, sejamos mais pragmáticos: afinal, no que consiste o exercício efetivo de liderança?

A resposta, muito mais do que a conclusão comprovada de uma teorização científica, é uma construção empírica erguida a partir do diálogo entre lideranças – e seus resultados – e estudiosos dispostos a estudá-las. A primeira corrente de explicações para a liderança fundou-se em traços; o líder deveria ter traços físicos, psicológicos e sociais inatos que lhe garantissem a possibilidade de exercer influência sobre os demais. Ou seja, seríamos todos invariavelmente fadados a líderes ou seguidores.

Visto que casos como o de Napoleão desmentiam a restritiva tese dos traços, o conceito de liderança passou a ser explicado em termos menos rígidos, como uma competência a ser aprendida. Nessa etapa, muitos foram os esforços para segmentar “perfis” e “estilos” de liderança – sem dúvidas uma empreitada mais comercial (que o diga os autores de livros de autoajuda) do que acadêmica. A visão clássica do líder democrático, autocrático ou liberal deu lugar ao líder compassivo, visionário, empreendedor e tantos outros nomes e codinomes. Segmentações à parte, o movimento iniciado, e que se estende até hoje, é o de relativização da liderança.

Voltemos à pergunta inicial. Para compreender no que consiste o exercício pleno da liderança é necessário compreender que, historicamente, o próprio conceito de liderança foi construído e desconstruído inúmeras vezes. Felizmente, como resultado desse processo, resta-nos mais do que dúvidas e um bocado de relativização. Percebe-se, ao longo de diferentes épocas, um padrão recorrente que permite definir liderança como a “competência de alguém em exercer influência sobre indivíduos e grupos” de modo que, no final, “resultados sejam obtidos”, como defende Sylvia Vergara, professora titular da FGV-EBAPE. Todavia, resultados por si só podem vir de coerção hierárquica, o que torna o sensemaking fundamental. O líder deve catalisar o processo de geração de resultados, e esses resultados devem ser compreendidos e assimilados por todos envolvidos no processo.

No âmbito empresarial, especificamente pelo momento econômico que nosso país atravessa, as lideranças têm papel fundamental. Muito discutimos sobre o que é a liderança e seu significado ao longo do tempo, mas, afinal, qual a melhor forma de exercer liderança hoje? A palavra chave é sensibilidade. O líder de hoje, mais do que escolher um estilo de liderança (ou descobrir o seu, se é que isso é possível), tem de ser capacitado – leia-se sensível – para lidar com as contradições inerentes às contingências de seu trabalho. O líder de hoje tem de caminhar pela linha tênue dividindo não dois, mas infinitos “estilos” de liderança. Ora educador, ora duro, ora obstinado, ora cauteloso. Sensibilidade, essa sim, característica necessária para entender o mundo – empresa, colaboradores, pares de trabalho, clientes, stakeholders externos, momento político, econômico e social – e ligar os pontos.

Assim, não se trata da relativização de tudo, mas, por outro lado, da única resposta racional frente à complexidade de nosso mundo: uma resposta plural.