Pequenos grandes empreendedores

Empreender. Palavra cada vez mais difundida na língua portuguesa que, no entanto, por vezes deixa de receber a devida atenção e importância que merece. A palavra empreendedorismo, que vem do francês “entrepreneur”, faz referência a alguém que assume riscos e começa algo novo. Muitos intitulam de empreendedores apenas indivíduos que iniciam negócios próprios, mas a característica empreendedora é cada vez mais procurada em funcionários contratados por grandes empresas – espera-se que o espírito inovador, proativo e a capacidade de tirar ideias do papel seja cada vez mais presente em todos os setores do mercado.

No Brasil, o empreendedorismo surge na década de 90 concomitantemente à abertura do país para a economia globalizada. A partir da entrada de fornecedores estrangeiros que controlavam os preços do país, alguns setores deixaram de ser competitivos e passaram a gerenciar novos projetos, abrindo negócios em busca de oportunidades que giravam em torno de produtos de diversas competências, o que demandava em know-how variado e abrangente. Hoje, o Brasil ocupa o terceiro lugar no ranking de países mais empreendedores do mundo, elaborada pelo Aproved Index. Curiosamente, a lista inicia-se com a Uganda e a China encontra-se na décima primeira posição.

A globalização trouxe transformações profundas para a o mercado, tendo como um dos principais fatores contribuintes a presença de concorrentes em uma escala global, sendo, então, preciso disputar espaço não apenas com milhões, mas bilhões de empresas. Nesse cenário de forte concorrência,  os diversos níveis hierárquicos em uma organização foram obrigados a mudar a sua perspectiva de habilidades exigidas para a contratação, adotando critérios muito além de questões técnicas e que se restrinjam à sua área de atuação. Isso ocorre já que é cada vez mais priorizada a contratação de pessoas que tragam resultados rápidos e precisos às organizações, maximizando seus lucros e permitindo sua constante expansão, sendo necessário para isso, funcionários que tenham uma visão mais ampla e estratégica da organização. Sendo assim, os candidatos são avaliados pelo seu capital humano, que envolve um conjunto de habilidades adquiridas pelas experiências de vida além de aspectos relacionais, emocionais e psicológicos apresentados por eles. A  qualidade desse capital humano procurado está, portanto, ligada a um conjunto de fatores desenvolvidos na formação educacional e profissional dos candidatos, além de estarem muito relacionadas à sua personalidade e valores. Por isso, quem consegue ver além, ter uma motivação intrínseca e liderar pessoas a sua volta, defendendo os valores da empresa como se fossem seus, são mais valorizados. Ou seja, o espírito empreendedor passa a ganhar grande destaque no mercado de trabalho.

No Brasil, entretanto, principalmente para os jovens, perdem-se grandes oportunidades pelo fato de o empreendedorismo não ser ensinado desde cedo. Segundo o estudo Global Entrepreneurship Monitor de 2015, 40% dos brasileiros entre 18 e 64 anos estão envolvidos na criação ou na manutenção de um negócio. Apesar disso, como aborda a Exame, 25% das PME’s fecham após 2 anos de funcionamento . Um dos principais motivos que contribuem para isso é a falta de capacitação dos brasileiros para empreender. Comprova-se assim que, apesar de o país ser conhecido como lar de empreendedores, ainda existe um longo caminho a ser percorrido até que esses negócios sejam bem sucedidos.

A falta de uma ambientação com o empreendedorismo nas escolas brasileiras é um dos principais agravantes nesse cenário atual do país. Com esse conceito mais difundido, o Brasil estaria investindo desde o início no potencial de seus próximos comandantes, uma vez que empreender não se trata apenas, como citado, de criar empresas. Neste outro sentido da palavra, teria-se pessoas muito mais instruídas e um percentual consideravelmente inferior de falências nas empresas, levando em conta que um dos principais fatores que levem a elas seja, além da pesada burocracia que enfrenta-se nesse meio, a falta de conhecimento de mercado e instrução sobre como estruturar o negócio por uma parte significante da população. Isso não pode ocorrer em um país em que o empreendedorismo apresenta-se como uma das saídas, encontrada por muitos, para uma crise econômica que tem deixado milhares de pessoas desempregadas. Além disso, como citado anteriormente, as características empreendedoras são, hoje, muito valorizadas pelas organizações, uma vez que possibilitam uma visão crítica de decisões, além de possuírem um forte senso de pertencimento. Esse fato faz com que as empresas possuam funcionários mais capacitados e, portanto, mais capazes de gerar impactos econômicos no país.

Além do aspecto econômico, a falta da formação escolar de empreendedores também apresenta uma forte perda no âmbito social. Isso ocorre pelo fato  de que o empreendedor está sempre em busca de idéias criativas, que desafie o senso comum e, além disso, tem a proatividade necessária para tirar as ideias do papel. Além disso, o empreendedor é aquele que trabalha por acreditar em um propósito, que faz com que ele enfrente muitos obstáculos em busca daquilo que acredita. Sendo assim, ele passa a ser um dos principais protagonistas em um mundo em que muitos estão descrentes com as mudanças necessária para uma melhoria social. Um exemplo preciso de mudança nesse aspecto seria a transformação do pensamento individualista para o coletivista. Isso porque, atualmente, os estudantes trabalham em grupo, onde é comum a subdivisão de trabalhos em participações individuais. Porém, caso as escolas se atentassem para a importância do empreendedorismo, as pessoas trabalhariam em equipe, onde um não consegue concluir o seu trabalho sem a ajuda do outro, fazendo com que os membros conseguissem ver importância no trabalho de seus colegas. Esse senso de coletividade é um dos fatores principais para o começo de mudanças sociais.

Dessa forma, a escola, muito além de um ambiente seguro para se cometer erros, é o palco ideal para que os brasileiros desenvolvam um pensamento estratégico e um planejamento de visão de negócio e aprendam a prototipar produtos e serviços, tornando válida toda a sua experiência acadêmica e já sendo preparados para o mercado de trabalho. Além disso, a formação empreendedora capacita os cidadãos a fazer mudanças sociais, trazendo transformações precisas ao país. Por fim, o Brasil clama por mudanças no currículo escolar. Essas mudanças podem ocorrer a partir da inclusão da matéria de empreendedorismo já no colégio, por visitas obrigatórias e periódicas a aceleradoras e a espaços de coworking para que, progressivamente, todos os habitantes do chamado país do futebol sejam decididos, corajosos, persistentes e que estejam sempre identificando oportunidades e agindo em prol do sucesso.